Em dezembro de 2003, na então condição de articulista da revista Timing, publiquei um relatório reservado intitulado “Sobrevivendo ao Grande Crash”. Nesse relatório, avaliei as condições macroeconômicas que se apresentavam naquele momento histórico, e com isso tracei um cenário que imaginei que veríamos se desenvolver nos anos seguintes, o que de fato ocorreu com uma grande margem de acerto.
O desenrolar dos acontecimentos de acordo com o cenário traçado no relatório acabou abrindo muitas portas em minha carreira profissional, e atraiu a curiosidade de muitas pessoas ligadas ao mercado, começando por investidores pessoa física, passando por colegas analistas, e chegando até grandes corporações.
Conforme o tempo passava e o grau de acerto do relatório ia se confirmando, maior ficava o interesse das pessoas, e uma avalanche de pedidos por novos relatórios, reuniões, e por atualizações do original, começou a inundar minha caixa postal. Por um bom tempo, não vi necessidade de fazer atualizações, pois o cenário descrito se desenvolvia a olhos vistos, sem sombra de ser interrompido por nenhum fator fundamental que trouxesse uma mudança na visão original. Então, 2008 chegou, e a necessidade da atualização se fez premente.
Nesta página, pretendo trazer um resumo dos pontos principais abordados naquela peça, avaliar como eles se desenvolveram e estão se desenvolvendo no tempo atual, bem como lançar um novo olhar em direção ao futuro, agora que o cenário macroeconômico parece estar “mudando de tom”. A intenção é dar continuidade ao trabalho original, e permitir que nossos leitores e visitantes tenham acesso a essa informação, no intuito de utiliza-la como acharem por bem.
Espero que este texto possa acrescentar algo à sua visão do nosso momento atual no mercado financeiro, e que a informação aqui contida possa trazer lucros e proteção do capital, assim como o relatório original trouxe aos seus leitores. Realizar um trabalho embasado e bem feito, e que seja útil às pessoas que o recebem, é sempre o objetivo de quem ama aquilo que faz.
Então convido o leitor a usufruir desta página, e caso ache interessante a informação aqui contida, que se sinta livre para repassar o link para seus amigos, conhecidos e parceiros de trabalho, para que ela possa ser utilizada pelo maior número possível de pessoas, já que creio que o momento atual é deveras importante, e pode definir o futuro financeiro de muitas pessoas, dependendo das atitudes que cada uma delas decidir tomar.
Ao contrário do relatório original, que foi uma peça paga, este texto está aberto a todos os visitantes, pois creio que a urgência de repassar esse conhecimento suplante qualquer outro objetivo neste momento.
Obrigado por sua visita, e boa leitura.
Jonas Fagá Jr.
No primeiro capítulo do relatório, mostrei como se formaram e se desenvolveram as duas maiores depressões econômicas da História, a saber, a de 1837-1843, e a mais conhecida, a de 1929-1939, que ficou conhecida como a “Grande Depressão”.
Basicamente,as duas grandes depressões foram precedidas por fortes ciclos de crescimento econômico gerados e alimentados em grande parte, por um forte aumento da massa monetária, através do uso indiscriminado do crédito em suas várias formas.
Políticas de juros baixos estimulam o consumo através do endividamento. O aumento no consumo traz um aumento no lucro das empresas, que então se reflete na alta dos preços das ações. A alta das ações traz um aumento no valor do patrimônio dos bancos detentores dos papéis, e com mais dinheiro “em caixa”, os bancos apressam-se em conceder mais crédito.
Os novos empréstimos vão seguir seu curso até chegarem novamente ao consumo, e realimentarem o ciclo. As ações formam uma tendência de alta firme, e não param de subir, assim como os lucros das empresas e os ganhos dos trabalhadores. Alguns desses trabalhadores se tornam investidores, começando a comprar ações e títulos visando um futuro melhor, e conforme o tempo passa, muitos acabam se tornando especuladores, tomando empréstimos a juros baixos para comprar ações e títulos.
Nessa fase inicial, o ganho nos mercados cobre com folga os baixos juros cobrados pelos empréstimos, o que estimula essa postura agressiva e um tanto irresponsável. Com o novo dinheiro chegando ao mercado, os papéis sobem ainda mais, e os bancos, mais ricos, emprestam ainda mais, num ciclo aparentemente interminável de lucros, crescimento, inflação e...alto endividamento.
A obviedade econômica aqui é que para que um ciclo desse se sustente, é necessária uma injeção CRESCENTE e CONSTANTE de mais crédito. Mas em um determinado momento isso não é mais possível. Quando o nível de endividamento se torna tão alto a ponto de tornar o risco de novos empréstimos inaceitável, o mercado passa a pedir juros mais altos em troca desse risco, e é aí que o castelo de cartas começa a desmoronar.
Os juros mais altos começam a pressionar os devedores, que retraem seus hábitos de consumo e começam a vender alguns ativos para honrar seus débitos. Com o menor consumo e com a venda de ativos, o lucro das empresas cai, assim como o preço de suas ações. Com a queda nos preços das ações, cai o patrimônio dos investidores e dos bancos, que passam a emprestar menos ainda. Com menos dinheiro, dívidas crescentes e cada vez mais caras a honrar, o ciclo se repete, destruindo agora grande parte do valor ilusório construído durante o ciclo de crescimento anterior.
Começam a acontecer os “defaults” (calotes). Dívidas deixam de ser honradas destruindo patrimônio e provocando grandes prejuízos aos bancos e investidores. A crise se alastra com uma busca desesperada por liquidez. A venda de ativos é generalizada, "cash is king".
O consumo despenca, assim como os preços. O desemprego aumenta de forma alarmante. O surto deflacionário que ocorre então, destrói quase que por completo qualquer ilusão de valor construída sobre o ciclo anterior. A recessão reina, e dependendo do tamanho da expansão anterior, transforma-se em depressão. A atividade econômica fica completamente estagnada, e os espíritos, abatidos pelas perdas, não conseguem encontrar ânimo e principalmente confiança para retomar o processo de crescimento produtivo por um bom tempo.
Nesse momento, entre mortos e feridos, os governos tendem a começar a fazer uso de políticas de “estímulo ao crescimento”, através de políticas de juros baixos, que (novamente) estimulam o consumo através do endividamento, criando assim as condições para que outro ciclo de expansão inflacionária se inicie, e a história se perpetue.
O ciclo econômico de expansão e contração parece ser algo natural e benéfico, e inerente à própria realidade econômica. A economia se desenvolve, como tudo, em ciclos, e tudo o que se expande demais deve se retrair novamente em busca do equilíbrio perdido. É esse movimento de pulsação, de respiração, que mantém a vida econômica fluindo, e que faz o mercado se “auto-regular”, corrigindo seus excessos. No entanto, fica claro perceber que quanto mais um ciclo de expansão é alimentado pelo crédito, maiores e mais dramáticos serão os ajustes futuros necessários.
Nesse aspecto, Murray Rothbard, um dos grandes expoentes da Escola Austríaca de pensamento econômico ao lado de Ludwig Von Mises e Friedrich Hayek, deu a receita definitiva para que os governos evitem as depressões:
“The way to prevent a depression, then, is simple: avoid starting a boom”
.(A maneira de prevenir uma depressão então, é evitar iniciar uma expansão).
Mas porque os governos parecem não assimilar as lições históricas e voltam a cometer os mesmos erros? Uma pergunta importantíssima, que deixaremos por hora, sem resposta, na intenção de provocar um pouco o pensamento crítico do leitor.
Ambas as depressões (1837-1843 e 1929-1939) ocorreram em cenários idênticos, após fortes períodos de expansão proporcionados por crédito abundante e barato.
Fortes períodos de expansão proporcionados por crédito abundante e barato? Opa, não é exatamente isso que foram os maravilhosos anos Greenspan?
Hmm... vejamos
No segundo capítulo do relatório de 2003, fiz um breve apanhado da carreira de Allan Greenspan quando ocupou o posto mais poderoso da economia internacional, o de presidente do Federal Reserve, o banco central americano.
Greenspan (a quem os membros do Clube de Vienna carinhosamente apelidaram de Green-Scam), ocupou o posto de presidente do FED durante 19 anos, de 1987 a 2006. COMO COSTUMA SER PRAXE ENTRE OS OCUPANTES DESSE POSTO, Greenspan enfrentou sua primeira grande crise logo no primeiro ano de seu mandato. Hmm.
Em uma segunda-feira que entraria para a história e ficaria conhecida como a “segunda-feira negra”, o mundo assistiu atônito o índice Dow Jones Industrial Average perder 22,6% em um único dia de negociações. Greenspan foi intensamente elogiado pelo modo como lidou com o desafio, injetando enorme quantidade de liquidez no sistema para evitar uma queda ainda maior. A medida surtiu efeito e o mercado logo se recuperou.
Dois anos depois, em 1989, a queda do muro de Berlim abriu a possibilidade real de que grande parte do mundo, que durante a guerra fria era alinhado ao bloco soviético, adotasse agora a democracia e a economia de mercado como base da reconstrução de seus países. O que se assistiu em seguida foi o início de um forte e amplo processo de globalização econômica que (entre outras coisas) agregou mais de um bilhão de novos trabalhadores (pobres e famintos) ao sistema produtivo, bem como abriu mercados antes isolados para as maravilhas do capitalismo e do crescimento econômico.
Essa enorme massa de trabalhadores trouxe uma forte pressão deflacionária no custo de mão de obra, pois esses trabalhadores estavam dispostos a trabalhar muito mais horas por salários muito menores do que seus concorrentes dos países desenvolvidos. Com isso, começou um forte processo de outsourcing (ou terceirização), com a transferência de grande parte do parque industrial global para outros países como o México e a China, por exemplo.
Esses ganhos de produtividade obtidos através da redução dos custos de produção permitiram que Greenspan utilizasse a ferramenta do crédito em escala nunca antes vista, pois o risco inflacionário era largamente compensado pela queda nos preços dos produtos industrializados, que agora eram produzidos em países emergentes e exportados para os Estados Unidos.
Com o processo de globalização se acelerando e os ganhos de produtividade aumentando, a expansão do crédito seguiu atrás, e Greenspan acabou injetando durante sua gestão no FED, mais dinheiro do que a soma de todos os outros períodos históricos.
Como era de se esperar (para quem não esquece as lições históricas), além dos investimentos produtivos, essa enorme expansão do crédito e da massa monetária estimulou também a especulação financeira, e o mercado acionário experimentou então um de seus maiores períodos de expansão durante a década de 90. Até que alguns sinais começaram a preocupar os observadores mais atentos.
Em 1997 a crise asiática assustou o mundo, e foi seguida logo em 1998 pela crise Russa, que culminou com a falência do LTCM. O Long Term Capital Management era um fundo altamente alavancado, cuja quebra colocou em risco todo o funcionamento do sistema financeiro na época. O FED de Greenspan e um grupo de banqueiros fizeram uma espécie de “vaquinha” de mais de um trilhão de dólares para saldar os débitos do LTCM, no intuito de evitar uma crise sistêmica. Acreditavam que seria melhor “assumir” o prejuízo do que colocar todo o sistema em risco.
Curiosidade: Um dos gestores do LTCM era Myron Scholes, vencedor de um prêmio Nobel em ciências econômicas, e criador (junto com Fischer Black), do modelo de precificação de opções amplamente utilizado até hoje em todo o mundo, conhecido por “Black and Scholes” .
Sem nenhum desrespeito à enorme contribuição de ambos às ciências econômicas, vale constatar que quanto maior a genialidade do cientista, maiores e mais perigosos os erros que eles são capazes de cometer.
Como Greenspan foi novamente capaz de contornar o problema (empurrando-o para o futuro), a confiança nos poderes do “Maestro” se tornou cega e quase unânime. Apesar de todas essas crises, o mercado de alta continuou. E um mercado de alta forte e duradouro é tudo o que os especuladores desejam.
Em meio a esse cenário, um novo dado surgiu, estimulando ainda mais o mercado de alta. O desenvolvimento da internet, e sua promessa de revolucionar a economia global, atraiu um grande número de investidores e uma bolha se formou em torno dos preços das empresas de tecnologia negociadas na Nasdaq.
A mania tomou proporções tão grandes que muitas das empresas que realizaram IPOs no final do processo, mal tinham um plano de negócios desenvolvido, e mesmo assim, receberam aportes de centenas de milhões de dólares de investidores ávidos por participar do mercado altista. Todos queriam uma fatia do bolo.
A crença dos especuladores era de que “desta vez era diferente”, um sentimento obviamente alicerçado nas intervenções pontuais e salvadoras do "maestro", aliadas a todo um repertório de tolices midiáticas que proclamavam o “fim do ciclo econômico” e o nascimento de uma “nova economia”. Papo pra boi dormir. Mesmerização das massas.
Para os observadores atentos, aquilo jamais poderia terminar de modo diferente do que ocorreu no passado. No entanto, qualquer pessoa que se atrevesse a questionar a realidade daquele surto especulativo era fortemente criticada pela mídia, pelos especuladores, e inclusive POR MUITOS DOS “MELHORES” ECONOMISTAS DO PLANETA, muitos dos quais hoje são críticos fervorosos das políticas que outrora aplaudiam, em uma forte demonstração da “coerência” de seu pensamento econômico.
Então, em março do ano 2000, tudo mudou, quando a Nasdaq atingiu seu pico histórico e começou a ceder. O “ciclo virtuoso” parecia estar chegando ao fim. O estouro da bolha da Nasdaq provocou perdas gigantescas e destruiu uma enorme quantidade de “valor” que estava exageradamente embutido nos preços dos ativos. Trilhões de dólares desapareceram, e o medo de uma recessão que pusesse fim ao ciclo de crescimento começou a predominar.
Para piorar as coisas, em setembro de 2001, o mundo assistiu praticamente em tempo real quando o World Trade Center foi reduzido a pó em um ataque sem precedentes na história.
No início de um processo de correção econômica, provocado pelo estouro de uma bolha, e agora alvo do terrorismo, a situação Americana começou rapidamente a se deteriorar, e o fim parecia próximo. Estariam os Estados Unidos e o mundo, prestes a viverem uma nova grande depressão? E que força teria essa depressão, precedida pelo maior aumento de crédito e de massa monetária de toda a história?E foi então que o Maestro conquistou definitivamente a admiração de “todos”, quando sacou de sua cartola a mais brilhante idéia que conseguiu ter no momento. Sua solução salvadora?
MAIS CRÉDITO, oras.
Greenspan esquartejou a taxa de juros básica do Fed, derrubando-a para 1% ao ano, em uma tentativa desesperada de evitar o maior colapso financeiro e econômico da história. Ao mesmo tempo, o presidente George W. Bush iniciou um processo de corte de impostos (para as camadas mais ricas) e um forte aumento de gastos (principalmente militares) que transformariam rapidamente o superávit herdado dos anos Clinton, em um dos piores déficits da história Americana.
Desta vez, e com a insistência nesta atitude, Greenspan estava prestes a criar e alimentar a última das bolhas de ativos, que ao estourar iria começar a comprometer todo o sistema em um futuro próximo, a bolha imobiliária, erroneamente apontada por nove em cada dez economistas modernos como a "causa" da crise atual.
A velha receita Keynesiana, onde o estado assume o papel de “consumidor” maior, no intuito de estimular a atividade econômica, estava novamente a ser utilizada, com o aval das melhores cabeças pensantes da época. O Keynesianismo era nessa época (e ainda é) quase uma religião entre os economistas.
Observação: O Clube de Vienna presta as devidas homenagens a John Maynard Keynes, embora tenha muito mais simpatia pelo pensamento da Escola Austríaca de Ludwig Von Mises, sendo uma homenagem a essa escola, o nome escolhido para o nosso grupo.
Arrecadando menos, gastando mais, e agora importando tudo o que antes era “Made in USA”, com uma etiqueta “Made in China”, a situação econômica dos Estados Unidos estava se deteriorando rapidamente durante a aurora do século XXI.
Mas havia um preço a ser pago por essas manobras. Um alto preço. A destruição constante e sistemática do valor do dólar americano, através da inflação. E porque, mesmo sabendo disso, os poderosos optaram por esse expediente?
A situação de oferta barata de crédito como vimos, provoca aumento da demanda por bens e serviços, o que eleva seus preços e ambos dão início a um ciclo de crescimento e inflação.
Como nesse cenário, supõe-se que os preços amanhã estarão mais altos do que os de hoje, e os juros pagos nas aplicações são relativamente baixos, o dinheiro é rapidamente reciclado, migrando da poupança para o consumo de bens e serviços, e enquanto durar essa dinâmica, o ciclo se manterá, provocando expansão econômica.
Embora os "reis" sempre digam aos "peões" que o combate à inflação é uma prioridade, isso passa muito longe da verdade. O cenário de crescimento e inflação é bastante vantajoso para qualquer governo.
Durante esses momentos históricos a economia cresce de forma vibrante, empregos são gerados, a prosperidade de dissemina e povo está feliz. A inflação faz os preços subirem, mas os salários também sobem, e há uma impressão constante de “ganho” e “progresso” por parte do cidadão.
Esse otimismo se reflete nos investimentos, com os investidores dispostos a correr mais riscos para obter lucros maiores, e o capital para novos empreendimentos é abundante. Novos negócios surgem, e o crescimento geral da economia, bem como da massa monetária em circulação, aumenta constantemente a receita de impostos para o governo.
E enquanto tudo isso acontece e os peões se embriagam com a fase de “vacas gordas”, o governo começa a recolher um imposto perverso de toda a população, sem que a maior parte dela se dê conta. O constante aumento da massa monetária e do crédito gera inflação, que deprecia o valor da moeda.
Como uma moeda representa uma dívida de um governo para com o detentor da mesma, sua desvalorização beneficia o devedor (governo) em detrimento do credor (população), que receberá a cada dia MENOS bens e serviços em troca da mesma quantidade de moeda. E o governo segue então concedendo crédito, e aplicando uma espécie de “calote sutil” através do imposto inflacionário. A inflação é “amiga” dos governos. Já a deflação...
A deflação ocorre no sentido inverso da inflação. Quando um surto de crescimento movido a crédito encontra seu apogeu, ele quase sempre está acompanhado de uma inflação alta, que passa dos níveis toleráveis pela população. Nesse momento, as autoridades monetárias promovem o aumento dos juros para tentar conter o crédito, retirar liquidez do sistema e com isso (dizem), reduzir a inflação.
As pessoas, muito endividadas nesse momento, reduzem seu consumo para fazer frente aos pagamentos de suas dívidas, agora cada vez mais pesadas em um ambiente de juros crescentes. O consumo é adiado. Aumenta a oferta de produtos e diminui a oferta de dinheiro na economia, provocando queda nos preços de ativos, bens e serviços. O ciclo se retro-alimenta do mesmo modo que o ciclo anterior, e os consumidores adiam suas compras, pois o dinheiro passa a ser mais bem remunerado nas aplicações com juros mais altos, e como os preços de bens e ativos estão caindo, adiar a compra parece ser a melhor alternativa.
Então está instalado o pior pesadelo de um governo: A recessão deflacionária. Dentro dessa dinâmica, a economia fica a cada dia mais estagnada, pois o capital necessário para movimentar o consumo e a produção fica imobilizado em aplicações de renda fixa, rendendo juros, enquanto toda a atividade econômica se contrai. O desemprego aumenta, as falências também. Aumentam os calotes, e a arrecadação de impostos também despenca. E o pior de tudo: O dinheiro, a dívida que o governo tem com a população, VALORIZA-SE a cada dia, favorecendo agora o detentor da moeda em detrimento do emissor.
Essa “senhora” chamada deflação, é muito mal vista por qualquer governo. É exatamente por isso que os governos e os responsáveis pelas políticas monetárias combatem a deflação de todas as formas possíveis, mesmo que continuem repetindo ao povo que sua verdadeira adversária seja a inflação. Nenhum governo quer sobre sua responsabilidade uma crise como as de 1837 e de 1929. No entanto, de tempos em tempos, elas ocorrem mesmo assim. Mas enquanto se puder adia-las...(Afinal, dizia Keynes que no longo prazo todos estaremos mortos mesmo...).
Ao reduzir as taxas de juros para 1% ao ano, Greenspan e o FED começaram a inundar o mercado Americano com a maior quantidade de crédito já vista em toda a história, mais ainda do que nos anos anteriores. A intenção óbvia era adiar o inevitável, fornecendo mais e mais crédito a um custo cada vez mais baixo no sentido de induzir novamente a população ao endividamento e ao consumo, e reativar a máquina econômica. Mas pra tudo há limite.
Ao reduzir as taxas de juros ao mesmo tempo em que provocavam os maiores déficits já vistos, em uma tentativa intervencionista de evitar o desenvolvimento natural do ciclo econômico, o FED e o governo Americano condenaram o dólar a pagar o preço do ajuste.
Existe uma verdade inexorável nos mercados. No longo prazo, o capital costuma fluir para onde é bem tratado. E a maneira de "tratar bem" o capital, é REMUNERANDO-O adequadamente. Oferecendo um juro baixíssimo, um enorme risco com o aumento dos déficits, uma economia entrando em período de contração e iniciando uma guerra contra o terrorismo global, os Estados Unidos da América e seu outrora “poderoso dólar” não eram mais o lugar adequado para que o capital pudesse ser considerado “bem tratado”.
Greenspan e o Tio Sam estavam aplicando um enorme calote em todos os detentores de dólares (todo o resto do mundo). Países que oferecem taxas de retorno mais atraentes, e com inflação controlada, começaram a atrair recursos de investimento que outrora eram destinados ao dólar e aos Estados Unidos. O resultado óbvio foi o agravamento da tendência histórica de baixa do dólar americano.
Foi da avaliação desse cenário que surgiu a base da primeira recomendação do relatório de 2003: A venda de dólares, e a compra de outras moedas fortes, e a substituição do dólar pelo ouro como instrumento de hedge cambial. Enquanto isso, outras coisas importantes começaram a acontecer no cenário Geopolítico global. Uma forte atividade imperialista, mascarada de “Guerra contra o Terror”. Uma cruzada moderna lançada por George W. bush, que teria conseqüências óbvias e desastrosas.
Embora os conflitos atuais ainda não deixem claro que uma grande guerra global se iniciou, esta é a sensação que temos ao verificar os fatos históricos quecontribuíram para desencadear as outras duas grandes guerras globais.
Em1907, os Estados Unidos enfrentaram uma grande crise econômica, e em 1914, aprimeira guerra mundial estourava. Em 1929 iniciou-se a grande depressão, e osEstados Unidos só começaram a sair dela quando a segunda grande guerra começou,no final da década de 30.
Em momentos onde a economia se contrai por conta de expansões anteriores exageradas, existe pouca coisa que um governo pode fazer para contornar o problema. Em última instância, a recomendação Keynesiana é de aumento nos gastos públicos (gastos do Estado), e uma das melhores maneiras de se fazer isso e colaborar com a retomada da indústria local, é colocar a máquina de guerra para funcionar a todo vapor.
Sem mencionar o fato que encontrar inimigos externos ajuda a catalisar as atenções e a revolta da população em outra direção, colocando qualquer pessoa que discorde disso como alguém que não é "patriota". A invasão do Afeganistão, seguida da invasão do Iraque, e agora os constantes ataques de Washington à política Iraniana, à Síria e à Coréia do Norte, mostram uma disposição incomum para a briga, que não se via nos Estados Unidos da bolha, pré ano 2000.
Se um governo gasta mais do que deve e não realiza coisas visíveis, as críticas serão muitas e ferozes. No entanto,apenas UM democrata, por exemplo, votou contra a invasão do Iraque no congresso Americano. Em tempos de guerra, ficar contra o governo se torna quase que uma traição. Ainda mais se for possível convencer a população de que a guerra é feita em DEFESA do país (por conta do terrorismo, por exemplo), e não para gerar atividade econômica enquanto se busca saquear os recursos alheios. Neste caso, obviamente, o PETRÓLEO.
O fim da guerra fria foi comemorado em grande estilo no ocidente, com a “vitória” da democracia e do livre mercado, que logo se espalharia por todo o mundo, selando o modo de vida ocidental como o modelo adequado para todos.
Independente do que acreditemos ou não, o que vemos hoje na Rússia e na China passa longe de democracia e de livre mercado. E, no entanto, estes dois países, os principais representantes do antigo mundo comunista, crescem a taxas espantosas, fortificam seu arsenal militar, e se recuperam rapidamente da débâcle que passaram por conta do “fim”do comunismo.
A Europa por sua vez, seune e expande suas fronteiras de modo rápido, chegando rapidamente ao Oriente Médio (quando a Turquia for enfim, anexada), e enquanto isso o Oriente Médio esquenta ainda mais por conta das intervenções Americanas e do eterno conflito entre Israel e os países Árabes, além do Irã.
Nota: não deixa de ser curioso notar que a república da Geórgia encontra-se muito próxima do ponto central de junção entre as fronteiras da Rússia, da futura Europa (pós Turquia) e do Oriente Médio. Se há alguma análise que eu gostaria que estivesse equivocada neste relatório, seria esta. Infelizmente, se uma grave recessão, ou até mesmo uma depressão se instalar, as chances de que as escaramuças atuais se expandam e acabem tomando os contornos de um conflito global crescem exponencialmente. Se esse conflito tomar forma, poderá sem sombra de dúvidas merecer o nome (já adotado por GeorgeBush) de Terceira Guerramundial.
E ocorrendo ou não este conflito de maneira formal, é nítido que o petróleo é o prêmio buscado. Ocidente e Oriente disputam o que sobrou das reservas globais conhecidas de petróleo. A China de um lado, com seu crescimento assustador, precisa de energia para garantir seu crescimento futuro. Os Estados Unidos são atualmente o maior consumidor global de petróleo, e por isso, precisam garantir seu abastecimento, e essa garantia está sendo buscada através das intervenções no Oriente Médio.
É importante notar que o fato de o petróleo ser cotado em dólares serve como um lastro para a moeda Americana (na falta de outro desde que Nixxon aboliu definitivamente o padrão-ouro). Sendo negociado em dólares, o comércio de petróleo cria a necessidade de compra de muitos dólares pelas nações envolvidas na negociação, ajudando a sustentar a moeda e o império Americano.
Se o petróleo deixasse de ser negociado em dólares, isso significaria mais uma enorme pressão de baixa na moeda Americana, uma tão forte que talvez, as autoridades em Washington não possam permitir que aconteça, sob o risco do dólar americano perder definitivamente o status de moeda de reserva global.
Talvez a maior "arma de destruição em massa" que Saddam Hussein tivesse em mãos fosse justamente essa. A algum tempo antes da invasão, Saddam pregava aos quatro ventos a necessidade de passar a cotar e vender o petróleo em EUROS.
Essa análise serviu de base para a segunda recomendação do relatório de 2003: A compra de ações de empresas produtoras de petróleo. Mas não seria só o petróleo que se beneficiaria de todo esse cenário conjunto. A união de todos esses fatores me fez detectar que estávamos no início de uma nova MEGATENDÊNCIA.
E o que é uma Megatendência?
Todos os fatores estudados até aqui se somavam em uma única direção: A economia Americana estava em sérios apuros, e com ela, sua moeda. E se a moeda utilizada por todo o planeta como reserva global de valor está com problemas, o mundo inteiro também está.
Quando vários fatores complexos como esses se unem, costumam criar aquilo que chamamos de MEGATENDÊNCIAS. Megatendências nada mais são do que tendências que, por sua grandeza, duram muitos anos, às vezes décadas, e provocam uma enorme transferência de riqueza durante o processo.
Durante a década de 70, após Nixon fechar completamente a janela da conversibilidade do dólar em ouro e jogar uma pá de cal no tratado de Bretton Woods, a inflação Americana atingiu níveis altíssimos para seus padrões. Era a época da “guerra fria” (que na verdade foi bem quente). Coréia, Vietnã, corrida espacial e a crescente competição com a hoje “extinta” URSS. O ambiente era altamente inflacionário, o dólar perdia valor, e para piorar as coisas, houve o choque do petróleo (qualquer semelhança com os dias atuais não será mera coincidência).
Nessa época, esses fatores se juntaram para criar a megatendência de alta do ouro. A acelerada perda de valor do dólar levou o metal dourado ao seu recorde histórico na época (perto de U$ 850,00 a onça). Tendo saído de um patamar anterior próximo de U$ 30,00 a onça, o ganho no metal foi de cerca de 2.733%, do fundo ao topo.
Durante a década seguinte (anos 80), a megatendência foi com as ações Japonesas. O índice Nikkei saiu de 6.850 pontos em outubro de 1982 e chegou até 38.915 pontos em dezembro de 1989. Um ganho de cerca de 470% em 7 anos.
Na década de 90, a megatendência foi nas bolsas Americanas. O Dow Jones saiu de 2.350 pontos em outubro de 1987 (quando ocorreu o CRASH de 87), e foi para 11.750 pontos em janeiro de 2000, valorizando-se cerca de 400% em 13 anos. O Nasdaq saiu de 166 pontos em outubro de 1990 para 4.816 pontos em março de 2000 (2.800% em 10 anos), e o S&P500 saiu de 300 pontos em outubro de 1990 para 1.527 pontos em março de 2000, rendendo cerca de 409% em 10 anos.
O investidor que lutou contra estas megatendências perdeu dinheiro. Já o investidor que navegou cada uma delas, teve potencial de realizar cerca de 4.000% de lucro em cerca de 30 anos, apenas com posições de longo prazo. Para ter sido considerado um gênio do mercado, bastaria a um investidor ter se antecipado a cada uma dessas megatendências, ter entrado nelas durante seu início, e ter permanecido comprado por cerca de uma década em cada uma.
No entanto, hoje é fácil perceber as megatendências do passado. Nosso trabalho é o de tentar detectar as megatendências do futuro. E foi esse trabalho de pesquisa que me levou a declarar em 2003, que estávamos nos anos inicias de uma nova megatendência.
Como eu disse no relatório de 2003: “Essa nova megatendência deve durar pelo menos uma década, talvez mais.Como nas megatendências anteriores, quem se posicionar contra elas, perderá dinheiro. Já quem se antecipar a elas e navegá-las no sentido correto, poderá fazer fortuna. Você pode imaginar qual é a nova megatendência em formação?Pense comigo:Se todos os fundamentos estudados até agora se unem na direção de um dólar mais fraco, o cenário global para a próxima década deverá ser muito parecido com o da década de 70, ou seja, de inflação.Nesse cenário, os ativos que mais se beneficiam são as COMMODITIES. E é justamente aqui que está a nova megatendência que se iniciou no ano 2000, e deve durar PELO MENOS até 2010: Alta das Commodities.”
Que ativos são esses? Commodities são os produtos básicos com os quais os produtos industrializados são fabricados. Alguns exemplos de commodities são: Petróleo e gás natural, grãos (soja, café, milho, etc), minérios (ferro, ouro, prata, platina, etc), etc. Todos são mercadorias primárias, mas com uma característica bem peculiar: Todos eles são ATIVOS REAIS, coisas palpáveis, que podem ser tocadas, medidas, pesadas, e são insumos de primeira necessidade para a sobrevivência de qualquer nação.
Commodities são, pela sua própria essência, a antítese da riqueza de papel.Três fatores importantes se somam na construção dessa megatendência:
1-) A desvalorização cada vez mais forte do dólar Americano - Com os preços de todas as commodities cotados em dólar, a perda do valor do mesmo provocará uma alta de preços, sendo necessário MAIS dólares para comprar a mesma quantidade de produtos.
2-) O forte crescimento Chinês – Crescendo a taxas impressionantes, a China tem se tornado um grande consumidor de commodities, seja para alimentar sua base industrial que agora atende a todo o planeta, seja para consumo próprio de um país com mais de um bilhão de habitantes cujos hábitos de consumo se modificam na medida em que a população enriquece.
3-) A guerra pelo petróleo – Com o forte crescimento global, e com os conflitos em torno do petróleo, principal matriz energética do planeta, mais pressões de alta para o ouro negro, e para os preços de energia de um modo geral.
E obviamente, em um ambiente onde o dinheiro perde valor, e as commodities sobem de preços, uma delas em especial se destaca, o metal precioso, dourado, a “relíquia bárbara” como a chamou Keynes, o OURO. O ouro merece particular atenção, pois além de ser uma commodity, ele também é uma MOEDA (currency). Aliás, a mais poderosa de todas as moedas.
Sim, pare pra pensar. O ouro é a única moeda aceita GLOBALMENTE, que tem servido de padrão de medição de valor ao longo de toda a história humana, e principalmente, que é totalmente independente de um banco central. Ou seja, o ouro é uma moeda, mas não pode ser “inflado” por nenhum banco central. A quantidade de ouro disponível no planeta é limitada, e isso, associado à sua beleza, durabilidade e maleabilidade, faz do ouro a moeda natural por excelência, desde que a raça humana inventou o dinheiro. O ouro nao representa a dívida de ninguém, ele não é uma simples "promessa" de pagamento por parte de um país.
Em termos de oferta e procura comercial, tudo conspira também para a alta do metal. A produção anual de ouro não é suficiente para atender a demanda. E essa demanda deve se tornar crescente conforme o dólar vai perdendo sua força de outrora.
Trecho do relatório de 2003:“Durante a década iniciada no ano 2000, quem estiver de fora da megatendência de alta das commodities estará perdendo dinheiro. Ao final desta megatendência, grande parte da riqueza irreal que só existe em papel ou em bits em algum computador de Banco Central pelo planeta terá desaparecido, e grande parte da riqueza remanescente terá migrado para ATIVOS REAIS.Aproveite a nova megatendência, antes que seja tarde. Durante esse processo, fortunas serão perdidas e novas fortunas serão feitas. De que lado você gostaria de estar?”
Nos capítulos 6 e 7 do relatório de 2003, falei sobre o crescimento da China e como isso impactaria os preços das commodities, além de citar Rússia e Brasil como dois players coadjuvantes importantes nesse cenário, basicamente por serem ambos, grandes produtores de commodities que se beneficiariam do crescimento Chinês.
Não vale a pena repetir aqui o conteúdo desses capítulos, pois depois de ocorrido, seria chover no molhado.No capítulo 8, tracei as estratégias de investimento que finalizaram a confecção do relatório.
A primeira recomendação dada no relatório de 2003 foi a adoção de um modelo de alocação de ativos. Em 2003, usei diversas páginas para comentar sobre as vantagens de um bom método de alocação. Neste texto esta parte será suprimida para não torná-lo muito grande. Caso tenha interesse em saber mais sobre como uma correta alocação de recursos pode contribuir para seu futuro financeiro (e é um assunto altamente recomendável), fique de olho para novos textos a serem publicados em breve aqui no site do Clube de Vienna.
Dentre as recomendações diretas feitas em 2003, podemos citar:
1 - Compra de ouro, substituição de parte do investimento cambial em ouro.
Uma decisão acertada. Uma rápida comparação da performance do ouro e do dólar mostra claramente como a troca desses ativos foi pontual e benéfica para a carteira.
2 – Formação de uma carteira de longo prazo com ações de empresas produtoras de commodities,
Entre elas: Petrobrás, Vale do Rio Doce, Gerdau, Fosfértil, Comgás, Sadia e Perdigão, entre outras recomendações feitas nos textos semanais publicados na revista Timing, recomendações estas mais voltadas a investidores internacionais, como BHP Billiton e Shinningbank, por exemplo.
3-Venda de dólar e índices Americanos
Uma decisão acertada do ponto de vista da venda de dólar, e com menos sucesso na questão da venda de índices americanos, já que a injeção de liquidez foi de tal monta que conseguiu fazer com que os índices NOMINAIS voltassem a atingir “recordes históricos” se medidos em dólares. Obviamente, descontada a desvalorização do dólar, a recomendação estava certa. Mas é preciso que sejamos claros e justos tanto em nossos acertos, como em nossos equívocos. Ninguém é infalível.
O tempo passou, os cenários traçados em 2003 se concretizaram, e agora 2008 chegou e trouxe consigo a crise de liquidez e de crédito, que se instalou nos mercados globais e parece ter revertido a maioria dessas tendências, fazendo com que ações de produtores de commodities, bem como as próprias commodities em si, tenham sofrido fortes correções, e o outrora combalido dólar americano tenha se fortalecido frente a todos os outros ativos.
Esses acontecimentos despertaram uma série de perguntas nos investidores:
O que mudou? A megatendência de baixa do dólar e de alta nas commodities terminou?
Se sim, qual a nova megatendência? O que fazer e como sobreviver nesse novo cenário?
Para tentar responder estas perguntas, precisamos começar esta parte tendo certeza do entendimento do leitor a respeito do funcionamento do modelo monetário atual, chamado de “Fractional Reserve System” ou “Modelo de Reserva Fracionária”.
Dentro deste modelo, os bancos são obrigados por lei a manterem apenas uma fração de seus depósitos em reserva, e tem liberdade para emprestar o resto dos recursos. Embora tendo essa autorização, eles continuam obrigados a honrar todos os depósitos sob demanda. Atualmente, esta é uma prática universal no modelo bancário moderno.
Isso significa que para cada dólar emprestado pelo Federal Reserve para um banco, apenas dez centavos de dólar precisam ser mantidos como reserva, podendo, os outros 90 centavos, se tornarem crédito cedido a outras instituições.
Uma segunda instituição que tome esses 90 centavos emprestados pode por sua vez, manter apenas nove centavos em reserva, e emprestar novamente a terceiros os 81 centavos remanescentes, e assim por diante.
Esse mecanismo permite que o montante de dinheiro em circulação seja imensamente amplificado ao final da cadeia de crédito, pois para cada dólar emitido e emprestado pelo Federal Reserve, cerca de outros sete dólares são criados como em um passe de mágica.
Isso aumenta bastante o poder do banco central em gerar liquidez, que tem sido a ferramenta principal através da qual os ciclos econômicos são distorcidos e o perverso imposto inflacionário tem sido cobrado das massas de forma quase imperceptível, pois todo esse excesso de liquidez, embora gere um aparente crescimento, deprecia o valor da moeda em circulação.
O problema começa a ficar evidente durante um ciclo de contração do crédito como o que estamos vivenciando agora. Sob a necessidade de honrar seus débitos, instituições começam a exigir o pagamento sobre seus empréstimos, e da mesma forma como a pirâmide de crescimento da massa monetária auxiliou a tornar o sistema extremamamente líquido, seu movimento inverso começa a destruir massa monetária na mesma velocidade, pois nenhum desses bancos tem em caixa o suficiente para honrar seus débitos.
Então, cada dólar em débito que deve ser pago no alto da cadeia, acaba exigindo a necessidade de que cerca de outros sete dólares sejam retirados do sistema, e isso começa a provocar um risco sistêmico grave que coloca em risco a sobrevivência de todo o sistema financeiro que, evidentemente, não possui a liquidez real para honrar seus compromissos.
Não bastasse esse esquema que mais se assemelha aos “Ponzi Schemes”, ou às famosas “pirâmides”, o momento atual é ainda mais sério devido a algo que Warren Buffet chamou de “as verdadeiras armas de destruição em massa”. Os derivativos.
É óbvio que derivativos são instrumentos financeiros de grande utilidade, principalmente se forem utilizados de acordo com o propósito para o qual foram criados, ou seja, para oferecer proteção aos operadores, e não como instrumento puramente especulativo.
Um derivativo nada mais é do que um contrato que pretende acertar hoje o preço de uma mercadoria ou ativo em alguma data futura, e sua utilidade é notável para proteger a cadeia produtiva de mudanças repentinas nos preços das mercadorias que negociam ou no valor das moedas nas quais essas mercadorias são negociadas.
Em um exemplo simples, digamos que um exportador realiza uma venda de um produto para o mercado internacional, para receber o pagamento para daqui a um mês. Ao realizar a venda, o produtor pode abrir um contrato derivativo que garanta a ele que, no caso de o dólar cair nesse meio tempo, o contrato o proteja da possível perda advinda da variação cambial.
Assim, mesmo que a moeda mude de valor até o recebimento, o impacto que isso causaria nos lucros fica mitigado pela proteção oferecida pelo contrato.
O problema todo vem do fato que os derivativos acabaram sendo amplamente utilizados não apenas para oferecer proteção nos negócios reais, mas também como instrumentos especulativos ao redor do planeta, em volumes crescentes e assustadores, chegando ao cúmulo de serem criados derivativos sobre os valores de outros derivativos, e sobre elementos que não podem ser "entregues" como taxas de juros futuras, entre outras coisas.
Fontes independentes estimam que hoje em dia, o mercado global de derivativos tenha um valor nominal total de mais de um quatrilhão de dólares (embora estimativas oficiais citem uma cifra perto de 600 trilhões de dólares). Em um planeta que produz um PIB global de cerca de 50 trilhões de dólares, fica fácil perceber o tamanho do problema.
Se toda essa montanha de derivativos tivesse de ser quitada, o planeta teria que dispor de cerca de 20 anos de toda sua produção de riqueza real. Isso se direcionasse TODA a produção de riqueza a esse objetivo, deixando todo o resto da humanidade sem acesso ao fruto do seu trabalho. Obviamente, uma tarefa impossível.
Tudo fica ainda mais grave se pararmos para analisar que o atual PIB de cerca de 50 trilhões anuais se deu em meio a um forte crescimento global, alimentado pelo excesso de liquidez, crescimento esse que tende a não se repetir nos próximos anos, justamente devido à crise que se instala, e que deve reduzir bastante o ritmo de crescimento do PIB global.
Se levarmos em conta então, essa enorme pirâmide de derivativos, e somarmos isso ao fato de que todo o nosso sistema monetário funciona dentro do modelo de reserva fracionária, fica fácil imaginar o tamanho do problema econômico que pode advir do desmonte dessa enorme bolha de crédito e especulação que invadiu todos os cantos do planeta durante as últimas décadas.
Vimos que as constantes crises enfrentadas pelo capitalismo nas últimas décadas foram combatidas com aumento de oferta de moeda. Aumento esse, amplificado pelos efeitos do sistema fracionário.
Essas políticas foram sendo praticadas pelos bancos centrais (mais notadamente o FED) baseadas na premissa de que os modernos métodos econométricos permitiriam às autoridades monetárias manejarem o ciclo econômico de modo a evitar ou ao menos reduzir os períodos recessivos, ficando apenas com a parte do crescimento, inaugurando assim uma era de prosperidade infinita. Uma abstração pueril, que vai totalmente contra os postulados da Escola Austríaca, e até mesmo da mais simplória capacidade de enxergar o óbvio.
Para os seguidores da Escola Austríaca, dentre os quais encontra-se o Clube de Vienna, todo período de crescimento gerado a partir do excesso de expansão monetária, deve ser seguido de uma contração econômica proporcional ao tamanho da expansão anterior. Provavelmente, este é o momento em que começamos a entrar em 2007, após o estouro da crise do subprime.
E ao levarmos em conta o tamanho e a duração da expansão anterior, podemos estimar que a contração que veremos agora será também dramática, sendo toda a crise vista até agora (novembro de 2008) apenas a ponta desse imenso iceberg contra o qual se choca nossa “titânica” economia.
O problema todo para as autoridades, é que períodos de contração monetária costumam gerar deflação, e como falamos no relatório de 2003, a deflação é a pior inimiga dos governos, pois retira deles a capacidade de tributar os peões através da inflação, além de provocar um ciclo de quebras, falências, desemprego e caos social, o pesadelo de qualquer governante.
Por isso mesmo, Bernanke, o atual presidente do Federal Reserve, deixou claro em seu discurso de 21 de novembro de 2002 frente ao clube nacional dos economistas em Washington D.C. que a possibilidade de um cenário deflacionário seria combatida com todas as ferramentas disponíveis.
O discurso, intitulado “Deflação, tendo certeza de que isto não aconteça aqui”, pode ser lido na íntegra neste link: http://www.federalreserve.gov/boardDocs/speeches/2002/20021121/default.htm
O Clube de Vienna recomenda fortemente a leitura deste discurso, onde Bernanke deixa claro quais seriam as ferramentas de que o Fed poderia fazer uso caso isso se mostrasse necessário.
Em resumo, depois de citar inúmeras outras ferramentas (todas elas já utilizadas sem o sucesso esperado), Bernanke deixa claro que o uso indiscriminado da capacidade do Federal Reserve em criar dinheiro infinitamente, seria a última e definitiva ferramenta do arsenal à disposição do FED.
Sob pena de assistir à maior depressão de toda a história, provocada pelo desmonte das pirâmides de derivativos construídas sobre o sistema de reserva fracionária, o Federal Reserve não nos parece inclinado a sequer pestanejar em fazer uso dessa ferramenta. Porém, devido ao tamanho da bolha monetária, de crédito e de derivativos que deve ser desinflada, cremos que a quantidade de dinheiro que tenha de ser criada possa colocar em risco a própria existência do papel moeda em um futuro próximo.
O processo de criar dinheiro do nada para honrar débitos existentes é chamado de MONETIZAÇÃO, e transfere o custo dessas dívidas ao papel moeda e, por conseqüência, a todos os seus detentores.
A equação é simples: O endividamento é alto? Criemos dinheiro para pagá-lo. O resultado também é simples, e se chama CALOTE. Um calote “branco”, diriam alguns, mas ainda assim, o maior calote da história.
E quem são os detentores de papel moeda? Ora, todos os cidadãos, empresas e entidades que necessitam fazer uso de moeda, ou seja, TODO MUNDO. Com um enorme agravante:
Desde a abolição do padrão ouro, e da sua substituição pelo padrão dólar, todos os bancos centrais ao redor do mundo passaram a lastrear a maior parte de suas reservas em papel moeda, a saber, títulos emitidos em dólares americanos.
O que nos leva a imaginar o que aconteceria com todos os tipos de papel moeda circulando ao redor do globo no caso do FED fazer uso de sua última ferramenta, a monetização em larga escala.
Provavelmente, veríamos todas as moedas do planeta dividindo o custo dessa imensa catástrofe, sofrendo todas elas, pesadas desvalorizações, ou mais corretamente, a perda de seu poder de compra.
Por conta desse cenário, o futuro desfecho dessa crise sem precedentes, contará certamente com dois componentes absolutamente contraditórios:
O primeiro é a deflação global que já estamos presenciando, com uma perda acelerada de valor dos ativos (principalmente os ativos de papel, baseados em débito) em relação à moeda (mais notadamente o dólar americano, a moeda global), provocada pela acelerada busca de liquidez por parte das instituições que agora tentam escapar do desmonte da pirâmide monetária da reserva fracionária liquidando ativos.
O segundo se trata da atitude do Federal Reserve ao tentar combater esse cenário, através da criação sem precedentes de papel moeda na intenção de amortecer o impacto desse processo, gerando inflação, que em tese, é o contrário da deflação.
Isso equivale a estarmos vendo todos os ativos perderem valor frente ao dólar americano, enquanto o dólar americano dá seus últimos suspiros antes de ele próprio, perder o pouco valor que ainda lhe resta e com isso, provavelmente contaminar todas as moedas globais.
Isso nos cheira a uma enorme e grave crise monetária, que deve abalar as estruturas do modelo de moeda fiduciária ao redor do planeta.
Se alguém pretende saber com certeza qual final essa história terá, duvide. Não existem precedentes históricos de onde possamos tirar exemplos ou experiência para lidar com a situação atual do nosso sistema. Estamos navegando em terreno nunca antes mapeado.
Uma coisa porém, parece certa aos analistas do Clube de Vienna. O sistema como nós o conhecemos, não sobreviverá à magnitude dos erros cometidos, e é bastante provável que tenhamos que redesenhar todo o sistema monetário e financeiro internacional, algo que já se encontra inclusive em fase de discussão entre os líderes globais.
O dólar americano certamente perderá seu status de reserva global de valor, devendo dar lugar (ainda que temporariamente) a uma cesta de moedas, ou algo parecido fazendo o papel de novo lastro. De todo modo, mesmo esse tipo de iniciativa nos parece fadada ao fracasso, já que a origem de toda essa monstruosidade reside justamente na falta de controle que esse modelo acarreta sobre a possibilidade de bancos centrais exagerarem na emissão de papel sem lastro.
E novamente, todos esses fatores reforçam ainda mais a necessidade de que parte das carteiras seja transformada em ouro em espécie, se não como investimento, ao menos como lastro, na tentativa de evitar possíveis perdas catastróficas quando o sistema chegar ao fim em seu encontro inexorável com a verdade, no dia em que o papel moeda buscar seu valor intrínseco. Zero.
Por conta de toda essa incerteza, tem sido minha política como analista nos últimos anos, recomendar que as carteiras de investimento sejam divididas em duas metades, cada uma delas garantindo sua performance (e sobrevivência) em um dos dois cenários opostos que devemos vivenciar: A deflação e a hiperinflação (ou mais precisamente, a crise monetária).
Ativos que se beneficiam de processos deflacionários são principalmente a LIQUIDEZ, ou seja, o dinheiro vivo. Durante crises deflacionárias, apenas o dinheiro ganha valor, enquanto todo o resto, perde. Vale lembrar que o ouro também é uma forma de liquidez, por ser uma moeda aceita em todo o planeta, e não apenas uma commodity metálica como muitos ainda erroneamente insistem em afirmar.
Já os ativos que se beneficiam de cenários hiper-inflacionários são aqueles mesmos que o relatório de 2003 já recomendava, ou seja, as commodities de um modo geral. Isso porque se o excesso de papel moeda se materializar no combate a essa crise (o que é praticamente certo), os preços das commodities devem disparar, pois enquanto não existe limite para a quantidade de dinheiro que um banco central possa criar, existem limites bem definidos para a quantidade de commodities que podem ser produzidas no planeta. A lei da oferta e da procura fará sua parte.
Vale lembrar que a atual depreciação dos preços das commodities se deve principalmente aos efeitos deflacionários da enorme desalavancagem que está ocorrendo nos mercados de papel, onde tudo que possa ser vendido para levantar liquidez acaba sendo oferecido na "bacia das almas", deprimindo seus preços.
No entanto, a grande maioria desses preços é negociada em mercados de papel (contratos futuros), e esses mercados já demonstram um forte descompasso entre os preços praticados nas bolsas e os preços praticados no mundo real, sendo a prata e o ouro os melhores exemplos disso. No mercado físico desses metais, estão sendo praticados ágios que variam de 30% a 50% sobre os preços negociados em bolsa.
Acreditamos que em breve, no espaço de alguns meses, essas distorções serão removidas, pela impossibilidade de se continuar a operar dentro desse modelo, e então os verdadeiros preços do ouro, da prata, e de muitas commodities surgirá das negociações extra-bolsas, surpreendendo muita gente.
Ao contrário do que acreditam alguns analistas, não será um possível excesso de demanda industrial que provocará uma possível continuidade da forte alta das commodities, mas sim sua procura por um sistema cada vez mais descrente no papel moeda e na dívida emitida por maus pagadores. Em um mundo onde o valor dos papéis torna-se a cada dia mais incerto e duvidoso, a humanidade tende a recorrer aquilo em que pode confiar, e isso significa riqueza real. Commodities.
Termino esta atualização lançando um forte alerta:
O momento não é propício para especulação de longo prazo, ou seja, para apostas fortes em uma ou outra direção dos preços. Estimo que a volatilidade continuará forte em ambas as direções, e que apesar de estarmos passando por um momento deflacionário, não devemos subestimar a capacidade do Federal Reserve em produzir uma infinidade de papel moeda na última tentativa de salvar o sistema que criou em 1913, e sobre o qual reinou durante os últimos 95 anos.
Existem momentos onde a prudência pode fazer toda a diferença entre sobreviver ou não. Este parece ser um desses momentos nos mercados financeiros globais. Em períodos assim, quem perder menos é o vencedor. O importante, se usarmos a analogia do jogo, é poder atravessar a crise sem perder todas as fichas, pois sem fichas, acabam as chances de continuar a jogar depois que a crise terminar.
E com certeza, um dia, essa crise terminará, afinal o ser humano precisa de um mínimo de ordem para poder sobreviver e prosperar, então, independente do tamanho dos desafios à nossa frente, essa crise não deve representar o “fim do mundo”, embora com certeza, ela represente o “fim de UM mundo”.
Um mundo construído em cima de mentiras de papel.
Semiparafraseando uma ilustre figura pública bem conhecida de todos nós, “nunca antes na história desse planeta” vivemos um período como este. Ele traz enormes desafios e enormes oportunidades.
Para as pessoas que desconhecem as causas reais dos problemas e que acreditam fortemente na capacidade das instituições em resolver o problema em prol dos peões, esse será um período difícil e de dolorosas descobertas.
Quando uma velha ordem morre lentamente, a dor das pessoas é tão maior quanto maior for seu apego à essa velha ordem. Mas vale lembrar porém, que todo fim é sempre um novo começo, e portanto, para aqueles capazes de se desprender das velhas formas e assimilar com rapidez a nova realidade que se apresenta, o mundo que se descortina é um mundo de infinitas possibilidades.
Nós, do Clube de Vienna, optamos por não ficarmos chorando o fim de uma era exigindo que os culpados sejam trazidos a julgamento no intuito de aliviar nossas dores através da vingança. A própria história tratará de julgar as pessoas conforme suas obras. Nosso objetivo aqui é outro.
Nós pretendemos unir nossas forças e nossos talentos, por mais limitados que sejam, no intuito de tentar atravessar esse período histórico da melhor forma possível e conseguirmos chegar ao novo mundo que se desenha dotados da capacidade de continuar construindo e prosperando, seja qual for o desafio que esteja à nossa frente, e sejam quais forem os sórdidos truques utilizados pelo rei e sua corte no sentido de nos separar daquilo que é nosso por direito.
Se teremos sucesso ou não, a história será nosso juiz. Mas vontade e (acreditamos) capacidade para tal, não nos faltam. Convidamos você a unir-se a nós nessa empreitada, da maneira que lhe for mais conveniente.
O Site do Clube de Vienna oferecerá constantemente bastante conteúdo livre através de diversos materiais educacionais gratuitos que estão sendo constantemente confeccionados e serão oferecidos a todos os interessados sem nenhum custo, em nossa página de downloads: http://www.clubedevienna.com/downloads.html.
Estaremos também editando diversos serviços remunerados, onde procuraremos atender as necessidades de diversos tipos de investidores para que todos consigamos juntos atravessar esse período turbulento, mantendo nossa capacidade não apenas de preservar nossa riqueza duramente conquistada, mas também de continuar sendo capazes de amplia-la em qualquer tipo de cenário.
Caso tenha interesse em saber mais sobre as características desses serviços, consulte nossa página de associação aqui: http://www.clubedevienna.com/associe-se.html
Caso tenha alguma outra dúvida, comentário ou sugestão, entre em contato conosco através deste formulário: http://www.clubedevienna.com/contato.html
Você poderá constatar que o que o Clube de Vienna tem para oferecer aos seus associados, pelos preços cobrados, é algo para o qual não existe comparação no mercado Brasileiro em termos de custo-benefício.
Saiba mais sobre quais são e como funcionam os quatro pilares sobre os quais contruímos nossas estratégias: http://www.clubedevienna.com/saiba-mais.html
Junte-se a nós e descubra porque nosso slogan é: "Clube de Vienna, aperfeiçoando a arte de construir e preservar riqueza"
E independente de sermos honrados com sua associação ou não, desejamos desde já para todos, que esta transição seja o mais suave possível, e que depois dela, possamos começar a construir um mundo mais justo e equilibrado do que este que nos tem sido entregue pelos poderes estabelecidos.
Um forte abraço, e SUCESSO!!!
Jonas Fagá Jr. - CNPI
Clique aqui para voltar para a página principal